Cuidado para não ficar igual
Chego à conclusão que todas as velhices se assemelham
Mais jovem, eu olhava os idosos e me espantava que eles não quisessem ir a Bagda, Kabul, Kartum, Kandahar, Tegucigalpa, Darwin (Ilustração: Facebook do autor) 1 – Hoje fui tomar um café com um amigo. A certa altura, ele me perguntou quais eram os meus planos de viagem para este ano. A expressão de perplexidade dele com minha resposta foi impagável. E, à medida que eu falava, eu próprio não acreditava no que dizia. Era eu mesmo?
2 – "Não tenho a menor vontade de voltar à Ásia, que foi minha grande paixão durante anos. Coreia, China, Taiwan, Cingapura, Tailândia, Filipinas, Indonésia, Malásia – nada disso me empolga mais. Resta um pouco de saudade do Vietnã e do Japão. Enchi até de Hong Kong."
3 – "Do Oriente-Médio, nenhuma saudade. Quando muito, uns dias no Egeu na costa turca, no começo ou no fim do verão. Não suporto o turismo brega do Golfo, não faço a mínima questão de voltar aos Emirados ou à Arábia Saudita. O resto, posso dar por visto."
4 – "Da África, sobrou a Tunísia e o Marrocos. Da zona subsaariana, dispenso tudo, embora tenha belas lembranças do Quênia e da África do Sul. Não acharia ruim uma visitinha ao Senegal e à Costa do Martim, mas só muito motivado. O mesmo vale para o Alto Nilo."
5 – "Índia, Paquistão, Sri Lanka e Bangladesh já não me dizem mais nada. Chega de formigueiros humanos! Na Ásia Central, faria mais uma viagem à Armênia e à Geórgia. Sobrou alguma curiosidade pelo Turquemenistão, onde nunca estive. O resto, pode apagar."
6 – "Nas Américas, ainda topo Buenos Aires e Montevidéu. Se o Brasil fosse outro país, me interessaria por quatro capitais, e olhe lá. A América Central não me diz nada. Quando muito, encararia um voo direto para um cantinho do Caribe. Nova York, claro, é hors-concours."
7 – "O que sobrou? A Europa. Alentejo, Douro, Galícia, Catalunha, Andaluzia, Puglia, Úmbria, Provence, Aquitaine, Bretagne e Transilvânia. Também gosto de Moscou e São Petersburgo. O resto, vi tudo à exaustão. O país que eu mais queria explorar era a Ucrânia, que amei cada vez que fui. Agora está descartada."
8 – "Por fim, a Escócia e a Inglaterra são os derradeiros focos magnéticos. São os países que ainda me motivam a ir para o aeroporto. Mesmo assim, tenho focos precisos. Edinburgh e Cambridge são os imãs, por razões parecidas. Mas também a Cornualha. E Londres, vá lá!"
9 – Enfim, ouvindo minhas palavras chego à conclusão que todas as velhices se assemelham. Mais jovem, eu olhava os idosos e me espantava que eles não quisessem ir a Bagdá, Kabul, Kartum, Kandahar, Tegucigalpa, Darwin. O que haveria de errado com os velhotes? Que decadência!
10 – Eu jurava que, mais velho, não hesitaria um minuto em ir para um piquenique em Ulan Bator. Hoje, não me importaria de ficar sentado à beira do lago em Lugano. Ou mesmo no Café de Flore, lendo os jornais. Lamentar ou celebrar que ainda me restem alguns pontos de interesse? Francamente.